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Curva ABC e Gestão de Mix de Produtos em Farmácias

  • Foto do escritor: Mais Saúde
    Mais Saúde
  • 23 de jul.
  • 7 min de leitura

Nem todo produto na prateleira de uma farmácia vale o mesmo esforço de gestão. Alguns poucos itens sustentam a maior parte do faturamento; a maioria dos produtos, ao contrário, contribui pouco para a receita, mas ainda ocupa espaço, capital e atenção da equipe. Tratar todo o mix da mesma forma — com o mesmo rigor de reposição, o mesmo espaço de gôndola, a mesma prioridade de negociação — é um dos erros mais silenciosos (e mais caros) da gestão farmacêutica.


A ferramenta que resolve esse problema tem décadas de uso comprovado em praticamente todos os setores do varejo: a curva ABC, baseada no Princípio de Pareto. A metodologia segue o princípio de que aproximadamente 20% dos produtos são responsáveis por 80% do faturamento — e aplicá-la corretamente é o que transforma uma gestão de estoque reativa em uma gestão estratégica, orientada por dados.


Se você já leu Giro de Estoque e Ruptura em Farmácias, sabe que a curva ABC já apareceu como ferramenta central para reduzir ruptura e melhorar o giro. Este artigo aprofunda especificamente essa metodologia: como aplicá-la na prática, os erros mais comuns na sua execução e as boas práticas que fazem dela um instrumento vivo de gestão, não apenas um relatório arquivado.


Sumário


O que é a curva ABC e como ela classifica o mix de produtos


A curva ABC é uma metodologia de classificação que categoriza os produtos de acordo com sua importância relativa para a empresa, baseando-se em critérios como valor de venda, demanda ou lucratividade. Na prática farmacêutica, ela costuma se estruturar assim:


  • Classe A: 

    Produtos com muito giro, que não podem faltar no estoque, representam cerca de 20% do estoque e contribuem para gerar 80% das receitas.


  • Classe B: 

    Produtos que oscilam nas vendas também precisam ser repostos com certa rapidez, representam cerca de 30% do estoque e 15% do faturamento.


  • Classe C: 

    A maioria do estoque pode chegar a 50% ou mais dos produtos, mas com baixo impacto financeiro, normalmente abaixo de 10% do faturamento.


Como aplicar a curva ABC na prática


1. Reúna dados de venda de um período representativo. 

Colete informações como valor de venda, quantidade vendida em um período determinado e lucro gerado por cada produto — o ideal é analisar de 60 a 90 dias, ou até um ano, dependendo da sazonalidade do mix.


2. Ordene os produtos por relevância. 

Ordene os itens de acordo com um critério específico — valor de venda, quantidade vendida ou lucro gerado, do maior para o menor.


3. Calcule o percentual acumulado. 

Calcule o percentual acumulado de cada item em relação ao total, dividindo o valor de venda de cada produto pelo total de vendas e somando progressivamente ao longo da lista.


4. Classifique em A, B e C conforme os pontos de corte. 

A categoria A geralmente inclui produtos que somam até 70-80% do faturamento acumulado, a categoria B de 15-25%, e a categoria C o restante.


5. Separe curvas por categoria de produto. 

É recomendável montar uma curva ABC separada para medicamentos e outra para produtos de perfumaria, dando atenção especial aos produtos sazonais.


6. Defina cobertura de estoque por classe. 

Produtos da Classe A costumam exigir compras diárias e compor até 50% do estoque com cobertura de 30 dias, enquanto a Classe B pode ter cobertura de até 60 dias.


7. Reclassifique periodicamente.

A curva ABC deve ser aplicada a cada 60 ou 90 dias, já que um produto pode estar na Classe A em um período do ano e decair para a Classe C em outro, geralmente por sazonalidade.


Benefícios de uma gestão de mix orientada por curva ABC


  • Priorização inteligente de recursos. 

    A classificação permite concentrar esforços e recursos nos itens mais críticos, adotando abordagens mais simplificadas para os de menor importância.


  • Redução de ruptura em produtos essenciais. 

    A ferramenta permite antecipar o calendário de compras junto aos fornecedores conforme o grau de importância de cada item, evitando a falta dos produtos que mais geram receita.


  • Melhor negociação com fornecedores. 

    Conhecer os itens da Classe A permite priorizar negociações com fornecedores, buscando melhores condições de compra, descontos ou prazos de pagamento</cite> para os produtos mais estratégicos.


  • Aumento da satisfação e fidelização do cliente. 

    Assegurar que os produtos mais importantes estejam sempre em estoque melhora o atendimento à demanda dos consumidores, aumentando a satisfação e fidelização.


  • Redução de capital imobilizado em itens de baixo giro. 

    Evita o acúmulo de produtos de Classe C que ocupam espaço e capital sem retorno proporcional.


Dados e estatísticas sobre curva ABC e mix de produtos


  • A Curva ABC segue o princípio de Pareto, no qual aproximadamente 20% dos produtos respondem por 80% do faturamento — um padrão observado consistentemente em farmácias de diferentes portes.


  • Produtos da Classe A representam cerca de 20% do total de itens, mas respondem por cerca de 80% das vendas, enquanto a Classe B compõe cerca de 30% do total de produtos e contribui com 15% das vendas.


  • A Classe C pode compreender cerca de 50% dos produtos do mix, mas com participação de apenas 5% no faturamento.


  • Produtos da Classe A costumam exigir cobertura de estoque de cerca de 30 dias, enquanto a Classe B pode operar com cobertura de até 60 dias, refletindo a diferença de urgência de reposição entre as categorias.


  • A metodologia tem origem histórica consolidada: o princípio de Pareto foi adaptado para a gestão de estoques nos anos 50 por engenheiros da General Electric, criando o sistema de análise ABC ainda utilizado hoje.


Esses números mostram que a concentração de valor em poucos produtos não é exceção — é a regra do varejo farmacêutico, tornando a curva ABC uma ferramenta praticamente obrigatória para qualquer gestão de estoque minimamente estruturada.


Erros mais comuns na aplicação da curva ABC


  • Considerar apenas o faturamento, ignorando margem e criticidade. 

    Um equívoco comum é olhar só para o faturamento e ignorar fatores como margem, sazonalidade e criticidade do produto — alguns itens de baixo valor podem ser essenciais para a experiência do cliente mesmo sem grande peso financeiro.


  • Não adaptar a estratégia após a classificação. 

    A curva ABC só gera resultado quando impacta decisões práticas no dia a dia da gestão — classificar sem agir sobre os dados é desperdício de esforço.


  • Depender de um único fornecedor para os itens de Classe A. 

    Depender de apenas um fornecedor para os medicamentos da Classe A pode ser arriscado; problemas na entrega deixam a farmácia sem produtos essenciais.


  • Manter grandes quantidades de itens de Classe C. 

    O erro comum é manter grandes quantidades de produtos de baixo giro, imobilizando capital e aumentando o risco de vencimento.


  • Utilizar métodos manuais em farmácias com mix grande. 

    Métodos manuais aumentam a chance de erros, especialmente quando a farmácia tem um mix de produtos muito extenso.


  • Não reclassificar diante da sazonalidade. 

    Ignorar que um produto pode migrar de classe conforme a época do ano — como itens respiratórios que sobem de relevância no inverno — distorce a gestão de compras.


Boas práticas para uma curva ABC viva e estratégica


  • Separe curvas por categoria de produto. 

    Monte uma curva ABC específica para medicamentos e outra para perfumaria, dando atenção redobrada aos produtos sazonais.


  • Use sistema automatizado em vez de planilha manual. 

    Investir em sistema de automação de gestão evita erros nos cálculos e torna as tomadas de decisão mais eficazes, especialmente em farmácias com mix amplo.


  • Diversifique fornecedores para os itens de Classe A. 

    Diversificar fornecedores dos produtos de maior giro garante abastecimento constante mesmo diante de problemas pontuais de entrega.


  • Posicione produtos de Classe A em locais estratégicos da loja. 

    Itens de Classe A devem estar em locais estratégicos da farmácia para facilitar o acesso do cliente e aumentar as vendas.


  • Utilize produtos de Classe B e C de forma inteligente, não apenas descartando-os. 

    Produtos pouco relevantes em faturamento podem servir como isca para atrair clientes, ou compor kits com itens de Classe A.


  • Reclassifique com frequência definida. 

    Revise a curva a cada 60 a 90 dias, ajustando o mix conforme sazonalidade e mudanças reais de comportamento de compra.


  • Trate a curva ABC como base para negociação com o distribuidor. 

    Conhecer os itens mais estratégicos permite priorizar negociações e buscar condições comerciais melhores especificamente para esses produtos.


Perguntas frequentes (FAQ)


Com que frequência a curva ABC deve ser refeita?

O recomendado é reclassificar a cada 60 ou 90 dias, já que produtos podem mudar de categoria conforme sazonalidade, mudanças de mercado ou alterações na precificação praticada.


A curva ABC serve só para medicamentos?

Não. Ela pode ser aplicada a qualquer categoria do mix da farmácia — perfumaria, higiene, correlatos — sendo recomendável, inclusive, montar curvas separadas por categoria para maior precisão na gestão.


Produtos de Classe C devem ser descontinuados?

Não necessariamente. Muitos itens de baixa relevância financeira são importantes para completar a experiência do cliente ou podem ser usados estrategicamente como isca ou parte de kits promocionais com produtos de Classe A.


Qual a diferença entre curva ABC de estoque e curva ABC de vendas?

A curva ABC de estoque avalia a representatividade dos produtos armazenados sobre o faturamento; a mesma metodologia pode ser aplicada a vendas, despesas e outras áreas da gestão, sempre seguindo a lógica de concentração de valor em poucos itens.


É possível aplicar a curva ABC sem sistema de gestão automatizado?

É possível fazer manualmente em planilhas, mas o processo fica mais sujeito a erro e menos ágil, especialmente em farmácias com grande variedade de SKUs — por isso, a recomendação é utilizar sistemas de gestão integrados sempre que possível.


Conclusão


A curva ABC transforma a gestão de mix de produtos de uma farmácia de reativa para estratégica: em vez de tratar centenas de SKUs com o mesmo nível de atenção, ela mostra exatamente onde concentrar esforço de reposição, negociação e espaço de gôndola. Farmácias que aplicam essa metodologia com regularidade — e, principalmente, que agem sobre os dados gerados por ela — conseguem reduzir a ruptura nos produtos que realmente importam, liberar capital de itens parados e negociar com mais força justamente onde a margem é mais sensível.


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Sobre o autor: Israel Rocha — Analista de Marketing na Distribuidora Mais Saúde.

 
 
 

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